quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
107.
Era uma da manhã, o empregado já impaciente para o fecho do bar, suspirava para que fossemos embora. Despedi-me e fui para o carro. Mas hoje fui pelo caminho mais longo. Tinha pensamentos distorcidos a ferver nesta noite fria e, agora, replecta de solidão. Não encontrei qualquer movimento humano nas ruas. As casas permaneciam desertas e silenciosas. As pessoas tinham desaparecido. Nem sequer se ouvia o assustado e discreto suspiro da criança que teimava em não adormecer. Não existia no ar, o incomodativo odor a pessoas vivas. Parei o carro. O mar agrediu-me os pulmões de tamanha pureza. A lua ofuscou-me enquanto eu permanecia calada, imóvel, sem saber o que sou. Tanto pó que tenho entranhado na minha vida. E tu, és o vento. Ás vezes, sopras e o pó do passado volta a levantar e a acordar sentimentos adormecidos. Depois, desapareces, obrigas-me a recolocar o pó dentro das minhas entranhas. E eu, tento fazer-me de forte. Mas cada vez mais sei, que isso de nada me serve. Visto bem as circunstâncias o que importa é que tenho de absorver o que tenho, ignorando o que não preciso (ignorando-te). Porque o que me faz falta, só me faz mal. E afinal, quando isto acabar, acabou-se e não é o que não tenho que irá sentir que existi.
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