A última vez que o vê é um acaso num dia de Inverno. Está parada no semáforo e ele atravessa a rua a correr à frente do carro dela, a fugir à chuva. Ao reparar nela pára, e por um momento, fica ali, hesitante, sem saber o que fazer, enredado numa atrapalhação, querendo fugir da chuva, mas sobretudo fugir por não saber como reagir perante ela. Faz-lhe um aceno parvo, um sorriso comprometido no rosto corado e foge, escondendo o embaraço debaixo do chapéu-de-chuva. Sorrateiramente passa por entre os carros, alcança o passeio e segue o seu caminho, incomodado, a pensar que não tivera a melhor das reacções, que foi azar tê-la encontrado. Ela acenou-lhe também, perplexa, um aceno triste, desiludido. Fica a vê-lo afastar-se, a pensar mais uma vez como foi possível alguém ser tão diferente daquilo que sempre acreditou que era. Lembra-se de outro momento, de outro dia chuvoso, os dois sentados numa esplanada à beira-mar, sozinhos, debaixo de um chapeu-de-chuva, divertidos. As mesas e as cadeiras molhadas, as gotas a pingarem nas poças, o sol de invejar ao longe, e eles dizendo que não será uma chuvinha qualquer que os haverá de separar, que ficarão sempre assim, juntos, faça sol ou faça chuva. O semáforo muda e ela desperta com as buzinas dos carros de trás, arranca. Ele já lá vai, perdeu-se na multidão,ela relembra o dia em que ele disse que foi a melhor decisão que tomara, pelos dois, porque não estavam destinados a ficar juntos, que se preocupou com o futuro e que há distâncias que não se toleram. Mas ela sempre soube que lhe estava a mentir, que é falsa a preocupação que falava.
No rádio do carro toca a música que costumavam ouvir, uma consequência perversa, desliga-o. Dali a pouco recebe uma mensagem dele. Desculpa não ter parado para te falar, diz, está a chover muito. Não dá valor à desculpa, à muito que deixara de achar as suas desculpas, não eram sentidas e nem sequer lhe responde. A paixão é mesmo só um momento, uma emoção. Sente saudades dele. Foi bom tê-lo visto e vai guardá-la sempre como uma recordação boa, mas o homem daquela época, não esta, que não sabe quem é.
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